Judeus ultraortodoxos celebram a festa de Lag Baomer em Meron (Photo/Oded Balilty) Judeus ultraortodoxos celebram a festa de Lag Baomer em Meron (Photo/Oded Balilty)

Judeus do mundo inteiro celebram hoje e amanhã o Lag Baomer. Entenda um pouco mais sobre o significado e os costumes desta festa mística do calendário judaico. Por que acendemos fogueiras? Arcos e flechas em 2022?


Rabino Ari Enkin, Diretor Rabínico, United with Israel

 

Na noite desta quarta-feira, 18, tem início a festa de Lag Baomer. Segundo a tradição judaica, Lag Baomer é o 33º do Omer, período entre Pessach ou a Páscoa judaica e a festa de Shavuot, dia em que Moisés recebeu a Torá no Monte Sina.

Esta festa do calendário judaico marca o fim da peste que exterminou 24.000 alunos do famoso rabino talmúdico Rabi Akiva. Lag Baomer também é o Yortzait (dia de falecimento) do também importante Rabi Shimon Bar Yochai, supostamente o autor do livro Zohar, o mais significante livro da Cabalá.

Segundo a tradição judaica, Lag Baomer é também o dia em que o Maná começou a cair dos céus para sustentar o povo judeu durante os 40 anos da travessia do deserto.

 

Fogueiras e música

 

Uma característica marcante das celebrações de Lag Baomer são as fogueiras. Judeus do mundo inteiro acenderão fogueiras na noite desta quinta-feira para marcar o início das festividades.

Há muita discussão sobre o que essas fogueiras representam e por que as acendemos. Algumas fontes dizem que as fogueiras são acesas para lembrarmos um suposto incêndio que começou logo após a morte de Rabi Shimon Bar Yochai. Outras dizem que o fogo é usado para lembrar o olhar de Rabi Shimon Bar Yochai. A força no olhar deste importante rabino seria tão poderosa quanto o fogo.

De acordo com uma terceira explicação, o fogo é usado para lembrar o “fogo da Torá”. Ou seja, a força da Torá e seus ensinamentos.

 

 Lag Baomer em Meron

 

Talvez um dia de jejum e introspeção seria o mais adequado para marcarmos o dia de falecimento de Rabi Shimon Bar Yochai, mas seu último pedido foi exatamente o contrário. A tradição nos ensina que ele solicitou que o dia de sua morte fosse celebrado com muita alegria. O motivo? Este seria um dia de milagres e revelações de inúmeros segredos da Torá.

Lag Baomer também é o dia que Rabi Shimon Bar Yochai teria sido ordenado Rabino em sua juventude. Nesta data, os romanos o soltaram da prisão depois de haver sentenciado-o à morte por ensinar Torá.

Durante o Lag Baomer em Israel milhares de judeus ortodoxos visitam o túmulo de Rabi Shimon Bar Yochai. Localizado na cidade de Meron, no norte de Israel, o túmulo de Rabi Shimon é um lugar considerado santo e por isso recebe todos os anos milhares de peregrinos.

Em média 200.000 pessoas visitam o túmulo de Rabi Shimon Bar Yochai na noite de Lag Baomer. Uma enorme fogueira é acesa, há muita música, dança e comida que será oferecida aos peregrinos que lá estiverem.

O famoso rabino Rav Ovadia de Bartenura, líder espiritual do século XV, escreveu: “No dia 18 de Yiar (mês do calendário judaico), o dia do Yortzait de Rabi Shimon Bar Yochai, pessoas de cidades vizinhas a Meron se reúnem, acendem fogueiras e velas em memória a Rabi Shimon. Este é um dia de milagres no qual mulheres estéreis conseguem engravidar e diversos doentes são curados.”

 

Por que as crianças brincam com arcos e flechas?

 

Um famoso costume de Lag Baomer é que crianças brincam com arcos e flechas. Na Bíblia, o livro de Crônicas (8:40) diz que: “E os filhos de Ulão eram homens valentes e heróis, eram arqueiros e atiravam flechas com seus arcos, e tiverem muitos filhos e filhos de filhos.”

Baseando-se neste versículo o famoso Rabino Nachman de Breslav nos ensinou que brincar com arcos e flechas é um “segulá” (presságio ou superstição) para se ter filhos.

Ao brincarmos com arcos e flechas lembramos também da vida de Rabi Shimon Bar Yochai. Conta-se que durante toda a vida deste rabino não foi visto um arco-íris sequer no céu. Na tradição judaica, o arco-íris representa a proteção de Deus sobre o mundo. A vida de Rabi Shimon teria servido a este propósito e o arco-íris se tornado supérfluo. Com sua morte, teríamos novamente que usar arcos e flechas para nossa proteção e o arco-íris teria voltado ao mundo.

Outro motivo para o costume de brincarmos com arco e flecha é lembramos o decreto romano que proibia os judeus de estudar e ensinar torá. Para burlar o decreto, judeus buscavam refúgio nos campos e florestas armados com seus arcos e flechas. Lá eles estudavam e ensinam Torá e se alguma patrulha romana os visse, os judeus alegavam que estavam caçando com seus arcos e flechas.

O arco e flecha também é usado para lembrar a revolta armada e a luta liderada por Rabi Akiva, aluno de Rabi Shimon Bar Yochai, contra os romanos.

O famoso Rebe de Lubavitch explica que os arcos e flechas representam o sucesso de uma pessoa no estudo da torá. O arqueiro sabe que para que sua flecha alcance longas distancias, ele deve puxar a corda em sua direção. Quanto mais ele puxar a corda para junto de seu corpo, mais longe a flecha voará. Assim seria o estudo da torá, quanto maior o investimento, quanto mais nos aproximarmos da torá, mais longe chegaremos.

Diversas são as explicações e significados deste dia. Entre todas estas versões há algo em comum, a alegria. Este é um dia de alegria, de milagres, de fé e esperamos que em Lag Baomer, seus desejos se tornem realidade.